Eu não sou muito boa para falar sobre assuntos que não domino e quando fui convidada a dar um pedacinho da minha opinião sobre o feminismo e a posição da mulher na sociedade ante aos preconceitos que persistem aqui no site da Marcha das Vadias, fiquei intimidada. Minha formação é em moda, arte, fotografia, meu conhecimento comportamental é amplo demais, não específico assim, e eu nunca parei para pensar a fundo sobre a questão da mulher. Claro que o convite não surgiu do nada e sim de um texto tímido que escrevi para o meu blog pessoal apoiando a Marcha das Vadias e alfinetando o preconceito que me ronda sem cessar, desde as cantadas e aproximações
ofensivas que sofro ao andar na rua até os comentários que ouço dentro do meu próprio círculo de amizades. Relembrando que nós mesmas, às vezes, damos força às declarações absurdas que ouvimos de homens e autoridades e como de repente, nosso preconceito se volta contra nós num piscar de olhos.
Mas o fato é: não precisa ser estudiosa do assunto para entender de preconceito, violência sexual, barreiras e mais barreiras que encontramos no caminho por ser mulher, basta ter nascido assim e viver inserida na sociedade. Eu admito que até pouco tempo atrás essas questões não me incomodavam tanto, mas isso porque eu não vivia numa realidade de mulher moderna: solteira, responsável financeira, trabalhadora e sim numa realidade pós-adolescente: “confortável”, relacionamento “sério”, bancada pelos pais e alheia aos problemas sociais que me cercavam. Claro que o preconceito esbarrou em mim de maneira muito mais suave. Para muitas ele vem agressivo, bate na porta e entra sem pedir licença, mas em todos os níveis ele não deve ser aceito, é algo invasivo e ninguém pode sentar na “poltrona de Deus” e se achar juiz da vida do outro e justificar atitudes injustificáveis. Ninguém tem o direito de tirar do próximo a liberdade de ser e existir, nem física e nem mental.
Agora de todos os textos que li e reli sobre comportamento, cultura, empoderamento feminino, o corpo da mulher transformado em objeto, a questão do termo “mulher fácil” etc. etc., o que mais me chocou foi o fato dos tribunais aceitarem que prostitutas, por se colocarem em situação de risco, devem “lidar” com a violência sexual inocentando completamente o agressor. Apenas um ponto de vários que não fazem o menor sentido. O próprio juiz de direito que está ali dizendo que a justiça não deve nada a ela por sua profissão e condição na sociedade, usufrui dos seus serviços, incentiva os amigos, colegas e filhos a usufruírem também. Alguns pensamentos estão incrustados na nossa cultura, como é o caso de mulher “pra casar” ou “pra comer”, mulher
que pratica sexo casual é vadia e homem é comedor e isso até nós mulheres, corremos o risco de falar, em determinadas situações e creio que levarão mais uns anos ou até mesmo décadas para o preconceito deixar de ser cultural, para lavar a sociedade desse limbo, porém inocentar uma violência escrita em lei ou até mesmo divina dependendo das suas crenças religiosas, pela posição econômica, vestimenta, cor do cabelo, quantidade de tatuagens, profissão da vítima é o preconceito esculachado, é a hipocrisia levada ao último, é o preconceito instalado onde ele menos deveria estar: em um tribunal de justiça. Antes de qualquer julgamento, o nosso dever é se colocar na posição do próximo, você e suas amigas talvez não sejam garotas de programa, mas somos todas mulheres, e temos como obrigação não deixar o direito das nossas filhas, sobrinhas, primas, amigas, netas, bisnetas ser roubado apenas por uma definição de gênero.
Eu, e muito provavelmente você também, nascemos num mundo onde a mulher já podia votar, trabalhar, estudar e casar por amor por isso não sabemos como era uma vida extremamente limitada e dominada pelo pai ou marido, com todos os direitos básicos de educação e liberdade castrados. Porém se pensarmos que a Suíça foi um dos últimos países a reconhecer o voto da mulher, em 1991 (ou seja, quando eu nasci algumas mulheres não tinham direito ao voto) e que mulheres com profissão que “não agradam” os olhos da sociedade ainda são colocadas na cadeira de réu e não de vítima em casos de abuso e violência sexual, podemos concluir que precisamos levantar da poltrona, sair do nosso estado de conforto, lutar e apoiar as causas pequenas ou as grandes e fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudar a desenvolver uma sociedade mais humana e menos machista, sem esperar o preconceito e a injustiça bater à nossa porta, doer e machucar, para tomar uma atitude.
E as colaborações são muitas: escrevendo ou divulgado textos, mantendo uma postura participativa em projetos sociais, divulgando matérias e instituições no Facebook e principalmente parar de criticar e julgar comportamentos que você não entende.
Não importa se você é ocupada 24horas ou se tem tempo de sobra, vale pensar que sempre dá para ajudar a mudar o funcionamento das coisas e plantar uma semente com um click do mouse. Se você vota, se você estuda, se você trabalha, se você pode usar mini saia ou calça jeans e namorar quem quiser foi porque mulheres lutaram por isso, por igualdade.
Agora depende de nós darmos continuidade ao movimento para que as próximas gerações possam ganhar salários iguais, julgamentos iguais, não saber o que é mulher “fácil” e poder andar na rua sem medo de ser ela mesma e sem medo de feliz.
(Por Marina Colerato)

“MARCHA DAS VADIAS – JOÃO PESSOA