Cheguei tarde para falar sobre a Marcha das Vadias. A quilômetros de distância, sem internet ou telefone, e a mesma ocorria, imponente, enquanto eu me deliciava nas praias de Barcelona, Espanha. Pela naturalidade da cidade que permite as mulheres livrarem-se dos incômodos de alcinhas apertadas e marcas de sol inconvenientes, tirei o top do biquini e passei a tarde expondo minha indecência a quem quisesse observar. Mas ninguém olhava para mim. Homens de todas as idades passavam ao meu redor, sem ao menos desviar os olhos para meus seios desnudos que, sem fazer objeções, aguardavam livres para serem admirados.

Praias na Espanha: naturalidade e seios à mostra
Barcelona, como se sabe muito bem, é um ambiente essencialmente turístico – quem dirá as areias da Barceloneta – e, assim, dezenas de crianças, das mais diversas nacionalidades, brincavam pela areia, corriam ao mar, faziam zigue-zague pelo entorno de tantas outras mulheres tão vulgares quando eu. Nenhuma pareceu, durante as longas e diversas horas que permaneci ao carinho do sol, incomodar-se com minha “libertinagem”. Como todos os outros homens, fui pelos novinhos e novinhas, igualmente ignorada. O choque de expor meu corpo, parecia representar um tabu que – se existisse e, ainda bem, não existia – só estava presente em mim.
Lá pelo meio da tarde, um comentário feito por um brasileiro, dirigindo-se a um estrangeiro que o acompanhava, me chamou tanto a atenção quanto a indiferença sem exceção dos olhares: “como são feios esses biquinis europeus. No Brasil se usa fio-dental, é muito mais bonito. As espanholas são muito estranhas, mostram o peito, mas não mostram a bunda.”
Ao voltar para casa e retornar à conexão que liga as diversas milhas que me separam do Brasil, me deparo com a enxurrada de comentários relacionados ao movimento feminista que luta pela igualdade de gêneros e pela liberdade das mulheres. Em uma transcendência dos clássicos cartazes e palavras de ordem, dessa vez as insatisfeitas decidiram tirar as blusas e mostrar o peito livre, em uma releitura mais ampla e contemporânea daquelas que, na década de 60, expuseram sutiãs ao chão, visando à crítica de modelos e padrões de beleza. O resultado – como era de se esperar em um país onde cada decote ou saia curta representa um número incontável de grosserias gritadas pelas ruas, onde o corpo feminino é tido como objeto de deleite, apto para ser assobiado, tratado como pedaço de carne exposto em açougue de compra livre sem qualquer moeda – não poderia ser outro, além da crítica generalizada: estão pedindo tolerância à putaria.
Veja bem, não tenho nenhum problema com ter meu corpo admirado. Sinto tesão quando um(a) amante me chama de gostosa, diz que eu sou bonita em todas as minhas curvas ou na ausência delas. A questão não recai em ter sua anatomia aliada à sexualidade: ela aterriza em permitir que essa mesma anatomia abra espaço à falta de respeito sem parâmetros. Elogios são diferentes de agressões – o que faz, obviamente, com que o “gostosa” que eu escuto da(o) minha(meu) amante, afaste-se abissalmente do “gostosa” que o passante anônimo me lança nas ruas. Meus seios sem sutiã, brindados por um decote, não são um prêmio de livre acesso para ninguém. Você pode pensar o que quiser acerca de o quão linda eu sou, mas não tem o direito de me desrespeitar me transformando em objeto solto ao seu dispor.
O pensamento institucionalizado traduzido em fato cotidiano, de que a mulher que exibe seu corpo (ou por sentir-se mais bonita de saia, ou por sentir-se mais confortável sem sutiã, ou por estar com calor e decidir colocar uma blusa decotada) está sujeita às “doces palavras” masculinas, está – e muito – relacionada com a crítica que conecta o “topless” feito no dia vinte e sete de maio (n.e. em Porto Alegre, e outras cidades) como indecente, vulgar, agressivo ou violento: seios foram, por definição, esculpidos para o deleite e prazer dos olhos masculinos. São objetos sexuais, pura e simplesmente, chocando as criancinhas que passeavam pela redenção no domingo, e arrancando sua ingenuidade.
Eu cresci ouvindo É o Tchan. “Ralando na boquinha da garrafa”, de shorts colados e barriga de fora. Cresci acompanhando a Globeleza que prenunciava cada carnaval, novamente brindado por tantas outras belezas dançando por horas seus corpos pintados de tinta. Cresci, também, acompanhando a banheira do Gugu, vendo capas de Playboy em bancas de jornal, comerciais de Cerveja feitos com a gota da bebida que descia pelo corpo escultural – e, é claro, de fio dental – da moça que abria uma latinha. Tudo isso depois de mamar nos seios de minha mãe e de minhas tias, que se vestiam à minha frente, enquanto eu tomava banho junto com os meus primos, ou com minhas amigas. Ao longo dos anos tive muitos seios ao meu redor, e atingi a maturidade sexual de maneira tão natural quanto todas e todos que dividiram essas múltiplas etapas comigo.
Os peitos à mostra da Marcha das Vadias representaram, em primeiro lugar, a ideia de que indecência é aquilo que tratamos como tal. Expuseram a incoerência de um discurso que não permite a igualdade de reagir ao calor, mas aceita tantos diversos calores traduzidos com outros objetivos. A hipocrisia de uma cultura que comemora a beleza do biquini fio dental, estranhando a “fralda” européia, mas é incapaz de ampliar o discurso como conceito, limitando-se ao costume individualizado em si. Não se questiona a lógica da celebração do corpo, apenas aceita-se determinados aspectos, refutando-se outros, ainda que estes representem o mesmo tipo de “indecência” ou “vulgaridade”, em verdade, inexistentes. Mostraram a ignorância de abarcar as práticas de culto ao corpo mercadológicas, negando automaticamente aquelas que deles se afastam e podem representar um caminho para a liberdade. A putaria, no fim das contas, está cristalizada na mente limitada de cada um de nós, ao persistir com a estratégia que fragmenta aquilo que deve ser aceito ou não, pautando tal julgamento por práticas e pensamentos patriarcalistas que, em tal seleção, perspassa pelo gênero e pelo padrão estético: os dignos de publicidade podem – e devem – ser expostos ao máximo.
Ademais, e para além de tanto, as corajosas que tiraram suas roupas mandaram uma mensagem ainda mais importante: a partir de agora, o medo é sentimento banido. Não há temor em se ter seios caídos. Não há perigo de ser tachada de o que for, se isso for o preço da luta que grita que a questão não são eles, somos nós. Todo seio é lindo para aquelas que entenderam que a boneca Barbie, as modelos macérrimas que desfilam em passarelas, ou as ultra-saradas “pampacats” não são as únicas alternativas para a beleza. As mulheres que marcharam na Redenção foram lindas, trazendo de dentro uma estética da indignação para a dignidade, da exigência pelo respeito ao corpo e a mulher que não traduz-se em objeto: com ou sem blusa.
Assim como os movimentos pelo fim ao preconceito homossexual (que também foram muito citadas pelos críticos das vadias), pelo aparente choque que podem efetuar em suas manifestações, o cerne da questão, na ausência de sutiã, nunca foi o choque: assim como os “beijaços” em público, os seios das mulheres escracharam a pura soberania, autodeterminação que afasta o pensamento dos demais: meus peitos não dizem respeito a mais ninguém, e eu tenho coragem de mostrá-los, assim como vocês. Foi o símbolo puro e simples da quebra do tabu do corpo, o ápice da auto-confiança, a porta para a naturalidade. A forma de mostrar que, se vocês, ao passarmos, olham para os nossos seios, para nós, eles são tão irrelevantes no total que somos como mulheres, e mais, como seres humanos, que podemos exibi-los com a mesma tranquilidade que vocês. E, em resultado, é elementar que os próprios também não se sentem reduzidos aos limites de seus corpos sem camisa.
Mas a mulher, ao longo de muitos séculos, teve seus seios diretamente vinculados à sexualidade e ao prazer masculino. E o corpo masculino, livre de blusas, não será, em muitos casos, extremamente atraente para homens que gostam de homens? Não existirá diversos homossexuais intimamente e sexualmente tentados pelos peitorais exibidos? Se não nos damos o valor (como se valor e respeito fosse algo necessário de ser provado, para se exigir) ao livrarmos-nos do pudor sexista calcado na mente da maioria, pedindo para sermos desrespeitadas por mostrarmos nossos mamilos (porque o restante já é calmamente aceitado), estarão os machos que largam as blusas em um dia de calor fazendo uma solicitação para serem sodomizados?
A Marcha das Vadias teve início pela fala infeliz de um policial que aliou o índice de estupros à maneira como as mulheres se vestiam. Muitos, frente a tanto, argumentam que o movimento que ocorreu em Porto Alegre desvinculou-se do original, perdendo seu sentido e sua razão de ser. No entanto, mais do que uma grande falácia, a réplica é inacreditavelmente simplista: o que se critica, na manifestação global, não é a ignorância factual da fala do machista canadense, mas sim os motivos e linhas de pensamento que o originaram. A violência simbólica representada por uma dominação velada e institucionalizada, que se traduz de maneira verbal, física e psicológica. Sendo assim, todos os cartazes brindados foram coerentes, todos as falas revoltosas fizeram sentido, cada peito livre fez-se ouvir brilhantemente.
A crítica burra escondida por moralismos sem sentido, em um país ironicamente conhecido por sua falta de pudor, só expõe a necessidade urgente de mais marchas. De mais coragem. De mais seios. E, em adição, mostra que não cheguei tarde para falar sobre a Marcha: ela pulsa e vive a cada dia, nutrida pela persistência das simpatizantes, amargamente estimulada pelo discurso dos que a dão sentido para existir.
Transcrevendo as palavras da imortal Simone de Beauvoir: “I have met brave women who are exploring the outer edge of human possibility (…) with a courage to make themselves vulnerable that I find moving beyond words.” (em tradução livre: “Conheci bravas mulheres que estão explorando o lado de fora do limite da possibilidade humana (…) com uma coragem de tornarem-se vulneráveis que eu considero habitando além do explicável por palavras.”).
Meus sinceros parabéns às mulheres que, através de uma suposta vulnerabilidade, brindaram, em verdade, toda a sua força, mostrando que ela é nossa, livre de padrões, de formas e, mais importante: à partir de agora, também é livre de medo.
Texto de Marcelli Cipriani, estudante dos cursos de Ciências Sociais na UFRGS e Direito da PUCRS, atualmente na Cidade do Porto, em Portugal, fazendo mobilidade acadêmica.
“MARCHA DAS VADIAS – JOÃO PESSOA